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Mostra Ecofalante iniciou neste semana com 101 produções de 40 países

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Com as poderosas imagens de um Cristo Negro, filmadas na mesma região em que Pier Paolo Pasolini rodou seu antológico O Evangelho Segundo São Mateus (1964), começou ontem, quarta-feira, 11, a décima edição da Mostra Ecofalante de Cinema. Mais uma vez online, em razão da pandemia, o festival, com 101 filmes de 40 países, se estende até 14/9 e poderá ser acompanhado de forma gratuita no site Ecofalante.

Nesse mar de filmes, alguns se destacam de antemão. Entre eles, sem dúvida, o próprio longa de abertura, O Novo Evangelho, do artista multimídia suíço Milo Rau. Em Matera, cidade da Basilicata, na Itália, prepara-se uma nova encenação da Paixão de Cristo. Foi lá que tanto Pasolini quanto Mel Gibson filmaram a história de Jesus. O ambiente é bíblico. Geografia e arquitetura antiga evocam a Palestina.

Acontece que a Matera contemporânea sobrevive do plantio de tomates e este emprega trabalhadores precários, imigrantes sem documentos em sua maior parte. Sem documentos e sem direitos, vindos da África em sua maioria, queixam-se de exploração e dizem-se vítimas de preconceitos. A história presente de injustiças une-se à história bíblica de um martírio.

O filme, densamente político, é também evocativo e relembra as obras antecedentes de Pasolini e Gibson através de pessoas que participaram dessas filmagens. Entre elas, o próprio Cristo revolucionário de Pasolini, Enrique Irazoqui.

A luta dos trabalhadores envolve a criação de uma cooperativa para comercializar os produtos da terra sem que os intermediários (a máfia) fiquem com a parte do leão. Esta é a luta real, liderada pelo ativista camaronês Yvan Sagnet, que interpreta o Cristo em seu calvário. A luta dos humildes contra os poderosos ganha assim caráter universal e intemporal, evocando a história original do cristianismo.

Outra obra digna de toda atenção é Jogo do Poder (Adults in the Room), de Costa-Gavras. O diretor franco-grego encena, de forma ficcional, o drama do seu país de origem ao tentar renegociar a dívida sob o assédio da “troika” – o FMI, o Banco Central Europeu, a Comunidade Europeia. Depois de sete anos de crise econômica, a Grécia vive um momento de esperança com a eleição de Alexis Tsipras (Alexandros Boardoumis) pela coligação de esquerda Syriza. Ele nomeia Yanis Varoufakis (Christos Loulis) para seu ministro das finanças. Este terá a nada fácil missão de negociar com a “troika” e convencê-la a reestruturar a dívida, pois o plano de austeridade, desejado pela autoridade econômica, apenas levaria mais desgraças para o povo grego.

À sua maneira realista, Costa-Gravas descreve com grande mestria essa batalha de bastidores. Uma guerra nada limpa, em que palavras empenhadas pouco valem e a vilania parece ser a moeda mais corrente e estável da comunidade. Mas, saindo desse registro, Costa-Gavras fornece pelo menos dois momentos de grande cinema, nos quais o realismo cede lugar à poética da imagem. Numa delas, o povo se aglomera, em silenciosa cobrança, diante da janela de um restaurante de luxo onde Yanis janta com a esposa. Noutra, as negociações de cúpula se transformam em gracioso bailado entre os participantes. A dança macabra do poder econômico.

Esta Mostra Ecofalante chega num momento em que as questões climáticas alcançam o nível de emergência. Os cientistas dão como irreversível o aquecimento global. Temperaturas extremas, tanto de calor como de frio, já entraram para o calendário do “novo normal”. Portanto, os filmes de natureza ecológica, que afinal justificam o nome do festival, devem ser vistos com atenção.

Por exemplo, em A História do Plástico (EUA), Deia Schlosberg adverte para o uso indiscriminado desse material, derivado do petróleo, e seus danos ao meio ambiente, em particular aos oceanos.

Solo Fértil (EUA), de Josh Tickell e Rebecca Harrell Tickell, tem registro mais otimista. Conta com narração do ator Woody Harrelson e depoimentos de Patricia Arquette e Gisele Bündchen, entre outras celebridades. Aborda um grupo de ativistas, cientistas e agricultores que se unem num movimento global chamado “Agricultura Regenerativa”. Tentam mostrar, com base na ciência, que nem tudo está perdido e mesmo o mais árido e maltratado dos solos pode se tornar fértil de novo. Entre outras coisas, o documentário é uma aula de microbiologia.

Além dos filmes, a mostra programou uma série de debates em torno de suas questões principais, e que também poderão ser acompanhados online. Os temas são diversos como Qual o custo da desigualdade no acesso à saúde? e Green New Deal: a retomada da economia será verde?. Para expandir sua abrangência, o festival contempla nada menos que sete eixos socioambientais – ativismo, biodiversidade, cidades, economia, povos & lugares, tecnologia e trabalho. Fala do mundo, da nossa casa ameaçada.

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Redação UBE
Redação UBEhttps://umaboaexperiencia.com
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